
O jovem gosta do bar, do grupo de amigos e da festa. O jovem não gosta de estar só. É falso dizer que o jovem não gosta de "grupo". O que importa é que este grupo seja agradável, possibilitando um relacionamento verdadeiro. É recordando tanta juventude nos bailes, nos bares, nos festivais, nos shows, que precisamos aprender a decifrar outro aspecto teológico da juventude: a vivência grupal.
O jovem experimenta com toda a força a beleza do grupo. Não erramos se dissermos “do comunitário”. O “comunitário” também é algo que se aprende. Vai-se experienciando o mais comum que ouvimos falar, isto é, que Deus não é um só, mas que Deus é, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo... O povo das comunidades até afirma que a Trindade é a melhor das comunidades. Encarando essa realidade como descoberta, no cotidiano sair de si, na vontade doida de ver o final de semana chegar, vislumbramos que a vontade divina de ser se manifesta de modo gritante na juventude.
Por isso entendemos por que o jovem, com seu jeito espontâneo e crítico, de acolhida ou rejeição, recorda sempre que a Igreja não pode resumir-se em ser “sacramentalista”, mas que ela é chamada a ser comunidade. O que a juventude sonha é uma Igreja que celebra a vida, que seja um povo de irmãos, que seja comunhão e participação, que tenha preferência pelos pobres, que seja profética e libertadora, que seja solidária e evangelizadora, que seja capaz de confiar e desafiar, isto é, que seja comunitária.
Lugar da felicidade
O grupo é o lugar da felicidade do jovem; o grupo é uma necessidade biológica, psicológica, sociológica e teológica. Não exageramos dizendo que o jovem tem uma necessidade violenta de viver em grupo. Ele é capaz de ficar a noite inteira sem dormir para conversar da vida. É cegueira ver nessa tendência unicamente vontade de “farrear”. A noite, para o jovem, é uma graça porque ela facilita o mistério do encontro. A noite é a companheira da juventude porque ela aproxima, no sentido mais integral da palavra. Encarar a noite simplesmente como aquela que esconde a verdade, é um sequestro terrível do sistema que sabe roubar até a poesia do gratuito e do comunitário.
A noite é a grande acolhedora do espírito grupal do jovem. Não é verdade que qualquer cidade tem os “points”, os lugares em que “a galera” se encontra? Se perguntarmos pelo porquê dessa busca, é verdade que vamos ouvir diferentes respostas: para namorar, para encontrar-se, para mostrar-se, para fumar o “baseado” da moda, para procurar transas etc.
Pode ser verdade, mas não é a verdade total. Algo mais profundo está em jogo, de forma misteriosa e que demora ser captada. Temos certeza, por exemplo, que até o gratuito está em jogo nestes encontros. Se perguntássemos por que estão aí, a resposta seria um sorriso a dizer “estamos porque estamos”...
É muito sintomático, na era da “Internet”, do “chat”, do “Orkut” e tantas outras invenções da informática, dar-nos conta de que nunca, na história humana, houve tanta procura juvenil de vivências grupais. Nem todas boas, mas grupais. É que a juventude, mais do que outras idades, sente à flor da pele a novidade da atração do diferente. Trata-se da invasão do outro e da outra. É ser pobre falar, nesse caso, somente de "instintos". Mesmo que seja uma "força" que venha de fora, está em jogo o apreço de sua subjetividade. Por isso afirmamos que nos encontramos no outro. O grupo tem a ver com amizade, tem a ver com festa, tem a ver com afetividade e sexualidade.
Bíblia e vivências de amizade
A Bíblia está cheia de vivências de amizade e companheirismo. Entre tantos exemplos (Davi e Jônatas, Tiago e João, Jesus e Lázaro, Marta e Maria...) queremos destacar a vivência narrada no Livro de Tobias. Mesmo sem recordar os pormenores desta narrativa comovente, Tobias, no seu mistério, pode encarnar a beleza da vivência grupal. Graças a Rafael – assim se chamava o anjo do Senhor – Tobias aprende a viver como companheiro. O companheiro, no entanto, não depende de nossas escolhas. Precisamos dele e ele aparece de repente como quem procura trabalho (cf. Tb 5,5). Caminhando com este “anjo”, na busca da vida, Tobias aprende a viver como companheiro, ajudando e sendo ajudado.
O companheiro, o grupo, é um Dom que Deus coloca frente à nossa “casa” sem percebermos que ele é um Dom. Quando Tobias promete pagar a Rafael pelos préstimos oferecidos, Rafael se revela como “anjo de Deus”, dizendo que a gratuidade é uma característica do Reino. A única coisa em que insiste é que “não se cansem de agradecer” (cf. Tb 12,6). A história de Tobias nos faz pensar, portanto, na vivência grupal. Assim como o jovem procura o grupo, ser companheiro de grupo é, antes de tudo, aprender a sê-lo todos os dias. É isso que o jovem gostaria de descobrir, na alegria que o caracteriza, quando se alegra em participar de grupo.
Necessidade de organização
Consequência da vida grupal é a descoberta e a necessidade da organização e da vida política. Precisamos aprender que Deus não nos sonhou desorganizados. Deus não quer ver-nos como “massa”, mas como “povo”. Deus não sonhou somente o “jovem”; ela deseja a “juventude”, isto é, jovens organizados. Deus deseja ver “juventudes” e, para isso acontecer, uma consequência da vivência grupal é a organização. Uma das formas melhores de o jovem encontrar sua identidade e sua missão no mundo é pertencer a uma organização que o leva a assumir responsabilidades, planejamentos, pedagogias, relacionamentos, isto é, a abraçar a sua identidade de protagonista.
O jovem gosta de rua, de viajar, de conhecer outros mundos, de escrever e ter relacionamentos com pessoas distantes. Não lhe agradam fronteiras, nem na religião. A organização é mais do que uma realidade sociológica; ela é uma coisa de Deus. Por isso defendemos a convicção de que a organização é, no trabalho com a juventude, uma opção pedagógica que não pode faltar.
Outra consequência da vida grupal é a vida política. O jovem não rejeita a política, mas a distorção dela. A necessidade de “normas”, de organização e da importância de saber “ceder” para o bem do todo não é algo que vai contra o jovem. Quando isso aparece de forma autoritária, sem exposições do sentido delas, é evidente que vá haver rejeição. Ser de grupo é uma forma de ser do mundo. Ser político, aliás, é uma graça que nos foi dada pelo batismo, sendo-nos dito por Deus que ser político é ser construtor de comunidades. Machuca-o a guerra; machuca-o a desigualdade. Ele sonha comunidade e, por isso, no grupo, todos são iguais.
Na vivência grupal está o Reino. "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, estou no meio deles.” (Mt 18,20.) Olhando, pois, essa fome do jovem de viver em grupo e o sentido profundo que isso carrega, só podemos exclamar com Paulo escrevendo aos romanos: “Como é profunda a riqueza, sabedoria e a ciência de Deus! [...] Todas as coisas vem dEle, por meio dEle e vão para Ele”. (Rm 11,33.36.)
Recordar tudo isso faz-nos imaginar a dor infinita do jovem quando vê essas realidades sendo pervertidas, enlameadas e chafurdadas. É uma dor que ninguém explica.
Por: Hilário Henrique Dick*
* Doutor em Literatura Brasileira, é jesuíta do Rio Grande do Sul, morador de São Leopoldo. Assessor Nacional da Pastoral da Juventude entre 1981 e 1983, dedica-se à causa juvenil há mais de trinta anos. Pesquisador do Instituto Humanitas e coordenador das primeiras edições do Curso de Pós-Graduação em Juventude.
Disponível em: o lutador.org.br